
No limiar dos quarenta anos me atrevo a dizer que a nossa é uma geração injustiçada. Somos filhos do “faça amor, não faça guerra”, mas quando chegou nossa vez de praticar o sexo livre fomos intimidados pelo HIV, e não fomos suficientemente criativos para inventar o só ficar. Os nascidos no início dos anos 1970 não vimos o Brasil sagrar-se campeão do mundo de futebol por um longo período, e quando isso finalmente ocorreu foi da forma mais sofrida possível, não tanto pelos pênaltis, mas pela locução do Galvão Bueno. Sentimos no próprio bolso os efeitos da hiperinflação, da constante troca de moedas, dos congelamentos, do confisco das poupanças e da estagnação econômica que rendeu aos anos 80 o título de “a década perdida”. Assistimos à queda do muro que desviou o epicentro da iminente catástrofe nuclear e que acabou com a dicotomia mocinhos e bandidos, mas acabou sepultando sob os escombros o sonho de uma utopia. Nascemos, crescemos e estudamos no país do futuro, mas agora que o Brasil começa a se transformar no país do presente, temos mais de 35 anos e o mercado nos rejeita.
A trilha sonora de nossa geração foi executada por artistas esqueléticos, de caras pálidas e roupas pretas. O ritmo mais introspectivo contrastava com os frenéticos “dancing days” que nos precederam e pode-se dizer que seus temas geralmente pessimistas foram a pá de cal no bom e velho “rock´n roll”.
Nossa parafernália tecnológica se resumia a um “walkman” de fita cassete (já vinha com uma esferográfica Bic para rebobinar a fita), a última palavra em mobilidade, e um três em um; nada de celulares, iIsto ou iAquilo. Frequentamos a escola e a faculdade sem jamais termos precisado de um computador. As novidades eram compartilhadas através de extensas missivas que, sem as carinhas dos e-mails, transmitiam as emoções do remetente pela maior ou menor pressão da escrita, erros e borrões. Receber uma carta era sempre um momento marcante. Hoje nos encontramos inundados por um sem número de aparelhos eletrônicos que muitas vezes nos obrigam a pedir penico para nossos sobrinhos e filhos.
Casamos e criamos os filhos com maior liberdade que fomos criados, e por isso não raro nos recriminam por não sermos pais enérgicos, que impõem o devido respeito à prole.
Somos praticamente dinossauros vivos, sem o fascínio que eles exercem sobre os mais jovens. O avanço das ciências e da saúde pública, aliado ao maior conforto da vida moderna, nos permite viver até os 90 ou 100 anos. Isto significa que estatisticamente não chegamos à metade do caminho. Tudo bem que cachorro velho não aprende truques novos, mas precisaremos muito mais que um pouquinho de esforço para não sermos um dinossauro numa lojinha de cristais.
(¹) Em homenagem “al abuelo” L. Scotto que completou 40 anos no último dia 20 de Fevereiro.
Foto: “Man”, de Salvatore Vuono (www.freedigitalphotos.net)







