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segunda-feira, 1 de março de 2010

“Temo o Homem de Um Livro Só”. E o leitor de um só autor?


Da máxima de Tomás de Aquino “temo o homem de um livro só”, fiz algumas adaptações livres para situações diversas, como certa ocasião quando discutíamos a melhor forma de gestão de nosso clube de rugby e defendi a responsabilidade compartilhada por temer as instituições de um homem só. Mas essas derivações se aplicam quando nos referimos a uma restrita base de autores favoritos? Sou um leitor de poucos autores. Meu comportamento mais conservador, minha aversão a arriscar em opções ignotas me impelem para a repetição, para navegar por mares conhecidos. Isso é verdadeiro também para restaurantes, bares e locais de passeio. Começo a frequentar um novo restaurante quando algum amigo o indica e, de preferência, paga a primeira conta.

Minha biblioteca se resume a poucos volumes (sem mencionar os empréstimos para sempre perdidos), mas inclui algumas obras, pelo menos as principais, de meus autores prediletos: Tchekhov, Dostoiévski e Gabriel García Marquez.

Anton Tchekhov representa meu ideal de escritor. Seus contos e peças teatrais me fascinam desde a adolescência. A peça As Três Irmãs marcou o início dessa admiração, consolidada logo a seguir por a Estepe.

Fiódor Dostoiévski é a superação como indivíduo, a capacidade criativa não obstante, ou talvez exatamente devido às dificuldades financeiras, de saúde e sua predileção por jogos de azar. Em um sarau literário ouvi um dos palestrantes que dizia conhecer uma mulher que quando perguntada se tinha o hábito de ler, respondia tão somente: “Sim, Dostoiévski”.

Admiro esses escritores russos pré-revolução soviética porque suas obras exprimem vitalidade.

Gabriel García Marquez é a literatura em 3D, a latinidade expressa de forma fantástica. Um arcabouço de obras independentes, mas que se encontram umas nas outras. Ler Cem Anos de Solidão oito vezes não é exagero, é necessário.

Quando levado pela mão e apresentado a novos autores, se revelam belíssimas surpresas: Charles me indicou Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, quando eu tentava elaborar uma narrativa tendo por paralelo os desenhos de Maurits Escher; Guilherme literalmente me conduziu pelo braço (havíamos bebido uma generosa quantidade de vinho no almoço) livraria adentro para comprar o clássico da literatura japonesa do pós-guerra Norwegian Wood, de Haruki Murakami.

Acredito não representar problema restringir a base de leitura a um ou poucos autores, desde que esses autores tenham qualidade literária e cujas obras atendam aos objetivos do leitor. Para avaliar a qualidade literária de cada autor existe toda uma metodologia, mas permanecer atual ao longo do tempo, e ter capacidade de reter a atenção do leitor a ponto deste não querer largar a obra enquanto não a termina são, a meu ver, dois critérios simples e funcionais. Cada leitor sabe qual autor melhor trabalha com seus sentimentos e faz da leitura um prazer especial.

Foto: "Coffee Time", de Ian Kahn (www.freedigitalphotos.net)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dinossauros Quarentões (¹)


No limiar dos quarenta anos me atrevo a dizer que a nossa é uma geração injustiçada. Somos filhos do “faça amor, não faça guerra”, mas quando chegou nossa vez de praticar o sexo livre fomos intimidados pelo HIV, e não fomos suficientemente criativos para inventar o só ficar. Os nascidos no início dos anos 1970 não vimos o Brasil sagrar-se campeão do mundo de futebol por um longo período, e quando isso finalmente ocorreu foi da forma mais sofrida possível, não tanto pelos pênaltis, mas pela locução do Galvão Bueno. Sentimos no próprio bolso os efeitos da hiperinflação, da constante troca de moedas, dos congelamentos, do confisco das poupanças e da estagnação econômica que rendeu aos anos 80 o título de “a década perdida”. Assistimos à queda do muro que desviou o epicentro da iminente catástrofe nuclear e que acabou com a dicotomia mocinhos e bandidos, mas acabou sepultando sob os escombros o sonho de uma utopia. Nascemos, crescemos e estudamos no país do futuro, mas agora que o Brasil começa a se transformar no país do presente, temos mais de 35 anos e o mercado nos rejeita.

A trilha sonora de nossa geração foi executada por artistas esqueléticos, de caras pálidas e roupas pretas. O ritmo mais introspectivo contrastava com os frenéticos “dancing days” que nos precederam e pode-se dizer que seus temas geralmente pessimistas foram a pá de cal no bom e velho “rock´n roll”.

Nossa parafernália tecnológica se resumia a um “walkman” de fita cassete (já vinha com uma esferográfica Bic para rebobinar a fita), a última palavra em mobilidade, e um três em um; nada de celulares, iIsto ou iAquilo. Frequentamos a escola e a faculdade sem jamais termos precisado de um computador. As novidades eram compartilhadas através de extensas missivas que, sem as carinhas dos e-mails, transmitiam as emoções do remetente pela maior ou menor pressão da escrita, erros e borrões. Receber uma carta era sempre um momento marcante. Hoje nos encontramos inundados por um sem número de aparelhos eletrônicos que muitas vezes nos obrigam a pedir penico para nossos sobrinhos e filhos.

Casamos e criamos os filhos com maior liberdade que fomos criados, e por isso não raro nos recriminam por não sermos pais enérgicos, que impõem o devido respeito à prole.

Somos praticamente dinossauros vivos, sem o fascínio que eles exercem sobre os mais jovens. O avanço das ciências e da saúde pública, aliado ao maior conforto da vida moderna, nos permite viver até os 90 ou 100 anos. Isto significa que estatisticamente não chegamos à metade do caminho. Tudo bem que cachorro velho não aprende truques novos, mas precisaremos muito mais que um pouquinho de esforço para não sermos um dinossauro numa lojinha de cristais.

(¹) Em homenagem “al abuelo” L. Scotto que completou 40 anos no último dia 20 de Fevereiro.

Foto: “Man”, de Salvatore Vuono (www.freedigitalphotos.net)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino: Rapidez (¹)


A segunda qualidade ou valor ou especificidade da literatura que Ítalo Calvino destaca em suas propostas é a rapidez. Calvino defende a rapidez como um valor a ser preservado especialmente por vivermos em uma época em que outros “media” triunfam a uma velocidade jamais vista e com um amplo raio de alcance, arriscando transformar a comunicação em uma grosseira crosta uniforme e homogênea. A literatura tem a função da comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas ressaltando a diferença, seguindo a vocação própria da linguagem escrita.

A apologia à rapidez não significa o desprezo ou a negação das virtudes e prazeres que existem no retardamento dos relatos. A rapidez de estilo e de pensamento deve ser entendida, acima de tudo, como mobilidade, agilidade, desenvoltura; a capacidade e habilidade do narrador divagar, saltar conscientemente de um assunto para outro, desviar astutamente da linha do relato para reencontrá-la ao término de inúmeros circunlóquios. A rapidez em literatura não deve ser entendida como a velocidade física, mas como a relação entre a velocidade física e a velocidade mental.

Um artifício muito empregado na literatura para assegurar a justaposição de assuntos é o uso de liames concretos ou verbais. Uma vez adotados esses recursos, eles assumem uma força especial, tornando-se um nó de uma rede de correlações invisíveis, o novelo de lã que orientará o leitor pelo labirinto da narrativa, sem perder o raciocínio principal. O simbolismo de um objeto pode ser mais ou menos explícito, dependendo dos objetivos de cada narrador. Objetos como relógios, cavalos, amor, entre outros são recorrentes na literatura em diferentes épocas e culturas, e não raro acabam se transformando nos verdadeiros protagonistas.

Ao falarmos em rapidez em narrativas, imediatamente nos vem à mente a figura dos poemas, dos contos ou das “short stories” americanas. Esse estilo literário caracteriza-se essencialmente por sua brevidade física. Um dos mestres da escrita breve, Jorge Luis Borges, notabiliza-se por “conseguir aberturas para o infinito sem o menor congestionamento, graças ao mais cristalino, sóbrio e arejado dos estilos; sua maneira de narrar sintética e esquemática que conduz a uma linguagem tão precisa quanto concreta, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, em seus adjetivos sempre inesperados e surpreendentes” (P. 63), em qualquer dos estilos que escreve.

A concisão é apenas um dos aspectos do tema rapidez. A rapidez entendida como a velocidade de pensamento, não ilide, entretanto, que sagas, cosmologias e epopeias sejam encerradas nas dimensões de um epigrama. A recomendação de Calvino para os tempos de grandes congestionamentos que nos aguardam é que a literatura tenha como foco principal a máxima concentração da poesia e do pensamento.


(¹) Recensão do Capítulo 2 do livro Seis propostas para o próximo milênio, Companhia das Letras, 1990, 3ª ed., 4ª reimpressão, tradução de Ivo Barroso.

Foto: "Time", de Salvatore Vuono (www.freedigitalphotos.net)