
Da máxima de Tomás de Aquino “temo o homem de um livro só”, fiz algumas adaptações livres para situações diversas, como certa ocasião quando discutíamos a melhor forma de gestão de nosso clube de rugby e defendi a responsabilidade compartilhada por temer as instituições de um homem só. Mas essas derivações se aplicam quando nos referimos a uma restrita base de autores favoritos? Sou um leitor de poucos autores. Meu comportamento mais conservador, minha aversão a arriscar em opções ignotas me impelem para a repetição, para navegar por mares conhecidos. Isso é verdadeiro também para restaurantes, bares e locais de passeio. Começo a frequentar um novo restaurante quando algum amigo o indica e, de preferência, paga a primeira conta.
Minha biblioteca se resume a poucos volumes (sem mencionar os empréstimos para sempre perdidos), mas inclui algumas obras, pelo menos as principais, de meus autores prediletos: Tchekhov, Dostoiévski e Gabriel García Marquez.
Anton Tchekhov representa meu ideal de escritor. Seus contos e peças teatrais me fascinam desde a adolescência. A peça As Três Irmãs marcou o início dessa admiração, consolidada logo a seguir por a Estepe.
Fiódor Dostoiévski é a superação como indivíduo, a capacidade criativa não obstante, ou talvez exatamente devido às dificuldades financeiras, de saúde e sua predileção por jogos de azar. Em um sarau literário ouvi um dos palestrantes que dizia conhecer uma mulher que quando perguntada se tinha o hábito de ler, respondia tão somente: “Sim, Dostoiévski”.
Admiro esses escritores russos pré-revolução soviética porque suas obras exprimem vitalidade.
Gabriel García Marquez é a literatura em 3D, a latinidade expressa de forma fantástica. Um arcabouço de obras independentes, mas que se encontram umas nas outras. Ler Cem Anos de Solidão oito vezes não é exagero, é necessário.
Quando levado pela mão e apresentado a novos autores, se revelam belíssimas surpresas: Charles me indicou Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, quando eu tentava elaborar uma narrativa tendo por paralelo os desenhos de Maurits Escher; Guilherme literalmente me conduziu pelo braço (havíamos bebido uma generosa quantidade de vinho no almoço) livraria adentro para comprar o clássico da literatura japonesa do pós-guerra Norwegian Wood, de Haruki Murakami.
Acredito não representar problema restringir a base de leitura a um ou poucos autores, desde que esses autores tenham qualidade literária e cujas obras atendam aos objetivos do leitor. Para avaliar a qualidade literária de cada autor existe toda uma metodologia, mas permanecer atual ao longo do tempo, e ter capacidade de reter a atenção do leitor a ponto deste não querer largar a obra enquanto não a termina são, a meu ver, dois critérios simples e funcionais. Cada leitor sabe qual autor melhor trabalha com seus sentimentos e faz da leitura um prazer especial.
Foto: "Coffee Time", de Ian Kahn (www.freedigitalphotos.net)







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