
A segunda qualidade ou valor ou especificidade da literatura que Ítalo Calvino destaca em suas propostas é a rapidez. Calvino defende a rapidez como um valor a ser preservado especialmente por vivermos em uma época em que outros “media” triunfam a uma velocidade jamais vista e com um amplo raio de alcance, arriscando transformar a comunicação em uma grosseira crosta uniforme e homogênea. A literatura tem a função da comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas ressaltando a diferença, seguindo a vocação própria da linguagem escrita.
A apologia à rapidez não significa o desprezo ou a negação das virtudes e prazeres que existem no retardamento dos relatos. A rapidez de estilo e de pensamento deve ser entendida, acima de tudo, como mobilidade, agilidade, desenvoltura; a capacidade e habilidade do narrador divagar, saltar conscientemente de um assunto para outro, desviar astutamente da linha do relato para reencontrá-la ao término de inúmeros circunlóquios. A rapidez em literatura não deve ser entendida como a velocidade física, mas como a relação entre a velocidade física e a velocidade mental.
Um artifício muito empregado na literatura para assegurar a justaposição de assuntos é o uso de liames concretos ou verbais. Uma vez adotados esses recursos, eles assumem uma força especial, tornando-se um nó de uma rede de correlações invisíveis, o novelo de lã que orientará o leitor pelo labirinto da narrativa, sem perder o raciocínio principal. O simbolismo de um objeto pode ser mais ou menos explícito, dependendo dos objetivos de cada narrador. Objetos como relógios, cavalos, amor, entre outros são recorrentes na literatura em diferentes épocas e culturas, e não raro acabam se transformando nos verdadeiros protagonistas.
Ao falarmos em rapidez em narrativas, imediatamente nos vem à mente a figura dos poemas, dos contos ou das “short stories” americanas. Esse estilo literário caracteriza-se essencialmente por sua brevidade física. Um dos mestres da escrita breve, Jorge Luis Borges, notabiliza-se por “conseguir aberturas para o infinito sem o menor congestionamento, graças ao mais cristalino, sóbrio e arejado dos estilos; sua maneira de narrar sintética e esquemática que conduz a uma linguagem tão precisa quanto concreta, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, em seus adjetivos sempre inesperados e surpreendentes” (P. 63), em qualquer dos estilos que escreve.
A concisão é apenas um dos aspectos do tema rapidez. A rapidez entendida como a velocidade de pensamento, não ilide, entretanto, que sagas, cosmologias e epopeias sejam encerradas nas dimensões de um epigrama. A recomendação de Calvino para os tempos de grandes congestionamentos que nos aguardam é que a literatura tenha como foco principal a máxima concentração da poesia e do pensamento.
(¹) Recensão do Capítulo 2 do livro Seis propostas para o próximo milênio, Companhia das Letras, 1990, 3ª ed., 4ª reimpressão, tradução de Ivo Barroso.
Foto: "Time", de Salvatore Vuono (www.freedigitalphotos.net)







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