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sábado, 7 de novembro de 2009

A Leveza em Ítalo Calvino


Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino: Leveza (1)

Ítalo Calvino nasceu em Cuba em Abril de 1923, mudando-se com os pais logo após o nascimento para a Itália. Integrou as linhas fascistas das quais desertou para juntar-se à resistência comunista durante a Segunda Guerra. Publicou sua primeira obra em 1947. Em Junho de 1984 foi convidado para ministrar as palestras no Charles Eliot Norton Poetry Lectures, um ciclo de conferências, cuja primeira edição data de 1926, que se desenvolve ao longo de um ano letivo na Universidade de Harvard, Cambridge, Massachussets.

Definição de “poetry”: Significa no presente caso qualquer espécie de comunicação poética, entendida num sentido amplo, que abrange também musical, figurativa, sendo entendida num sentido amplo, que abrange também a música e as artes plásticas; da mesma forma que se incluam no mesmo discurso poesia em versos e romance (Pág. 5; 9).

Proposta oposição leveza-peso, a favor da leveza. Calvino define sua obra, principalmente de ficção, como uma subtração do peso de personagens, corpos celestes, cidades, mas de forma especial retirar o peso à estrutura da narrativa e à linguagem (Pág. 15).

Logo no início da carreira percebe a dificuldade em trabalhar a matéria-prima (acontecimentos vibrantes da vida, da história, o espetáculo do movimento do pós Guerra) com um estilo que deseja ágil, impetuoso e cortante, sem que a inércia, opacidade, pesadume do mundo real se transfira para a escrita por não encontrar um meio de evitá-lo (Pág. 16).

É na função existencial da literatura que Calvino norteia toda sua argumentação na defesa da leveza como reação ao peso de viver (Pág. 39), pois vê na literatura uma necessidade de busca do conhecimento, considerando-a extensível à antropologia, à etnologia, à mitologia.

Calvino ilustra seu argumento a favor da leveza recorrendo a exemplos que vão desde passagens mitológicas, passando por poemas filosóficos, histórias populares até obras cultas modernas. Uma primeira clara evidência da valorização da leveza em obras literárias é encontrada em Lucrécio (2) e Ovídio (3), com fundamentação científica e filosófica de Epícuro (4) e Pitágoras (5), respectivamente.

Para Calvino a leveza está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório. “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”, cita Paul Valéry (6). O exemplo da obra do poeta florentino Guido Cavalcanti (7) é o que mais concentra as características de leveza preconizadas por Calvino. Os raios luminosos, as imagens óticas, os suspiros, ou “espíritos”, são usados para definir os personagens de suas obras, mais do que as figuras humanas. O “espírito” é caracterizado por 1) ser levíssimo; 2) estar sempre em movimento; e 3) ser um vetor de informação. Em Cavalcanti o peso da matéria se dissolve pelo fato de poderem ser numerosos e intercambiáveis os materiais do simulacro humano. A metáfora em Cavalcanti não impõe um objeto sólido, como em Dante.
A partir da obra de Cavalcanti, Calvino irá estabelecer três acepções distintas para a leveza:




  1. Despojamento da linguagem por meio do qual os significados são canalizados por um tecido verbal quase imponderável até assumirem essa mesma rarefeita consistência.


  2. A narração de um raciocínio ou de um processo psicológico no qual interferem elementos sutis e imperceptíveis, ou qualquer descrição que comporte um alto grau de abstração.


  3. Uma imagem figurativa de leveza que assuma um valor emblemático, como as pernas levíssimas do filósofo entre os túmulos.

A partir desses três pontos podemos encontrar inúmeros exemplos de leveza na literatura universal:




  1. Shakespeare: Mercúcio, Ariel e Hamlet: Humor X Cômico; Melancolia X Tristeza;


  2. Cyrano de Bergerac: Algo muito frágil e precário define as coisas, defendendo certa irmandade entre as coisas e os homens, 150 anos antes da Revolução Francesa;


  3. A imaginação poética do Século XVIII é rica em objetos suspensos no ar: Jonathan Swift (Laputa), Voltaire (Micrômegas), tradução das 1001 Noites por Antonie Galland; e


  4. Por fim os contos populares do Barão de Münchausen, além de lendas e fábulas sobre xamãs e bruxas que flutuam.

Mas é Giacomo Leopardi quem melhor expressa a idéia de leveza ao definir com precisão científica (tendo por base Isaac Newton) o insustentável peso do viver.


Calvino nos convida a 1) saltar com Cavalcanti sobre os túmulos; 2) acompanhar os passos da dança de Mercúcio; e 3) a embarcar na cuba de Kafka para desembarcar somente com aquilo que é necessário para a literatura deste milênio – a leveza que tentou ilustrar.


Notas:

Foto: Feather, de Suat Eman(http://www.freedigitalphotos.net/images/Uncategorised_g43-Feather_p5027.html)
(1) Texto apresentado por este blogger como um dos exercícios nas excelentes aulas da Oficina Literária de Charles Kiefer (Março/2007).
(2) O poeta latino TITO LUCRÉCIO CARO, que viveu no século I a.C., escreveu um único livro: o poema De Rerum Natura. Nele defende a teoria atomista (Demócrito já tinha dito antes «Tudo no mundo é átomos e espaço vazio») mas fala, além de coisas da física e da química, de muitas outras coisas: biologia, psicologia, filosofia, etc.
(3) PUBLIUS OVIDIUS NASO, poeta latino, nasceu em 43 a.C., autor de A Arte de Amar (Ars Amatoria) e Metamorfoses (Metamorphoses), escrita em hexâmetro dactílico, métrica comum aos poemas épicos de Homero e Virgílio. Faleceu no ano 17 a.D. Ovídio influenciou com seus versos, cheios de suavidade e harmonia, autores tão diversos como Dante, Milton e Shakespeare.
(4) EPICURO nasceu em Atenas, em 341 a.C. Consta que Epicuro ouviu o filósofo acadêmico Pânfilo e que com Nausífanes de Teo, discípulo de Demócrito de Abdera, Epicuro teria entrado em contato com a teoria atomista da qual reformulou alguns pontos. Lecionou em sua escola filosófica (O Jardim) até a morte, em 271 a.C.
(5) Da vida de PITÁGORAS quase nada pode ser afirmado com certeza, já que ele foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos, como referentes a suas viagens e a seus contatos com as culturas orientais. Parece certo, contudo, que o Filósofo e matemático grego nasceu no ano de 571 a.C. ou 570 a.C. na cidade de Samos. Fundou uma escola mística e filosófica em Crotona (colônia grega na península itálica), cujos princípios foram determinantes para evolução geral da matemática e da filosofia ocidental cujo principais enfoques eram: harmonia matemática, doutrina dos números e dualismo cósmico essencial.
(6) AMBROISE-PAUL-TOUSSAINT-JULES VALÉRY (30 de outubro de 1871, em Sète – 20 de julho de 1945, em Paris) foi um filósofo, escritor e poeta francês, da escola simbolista. Seus escritos incluem interesses em matemática, filosofia e música.
(7) GUIDO CAVALCANTI (c. 1255–1300) poeta italiano inspiração e amigo de Dante. Nasceu em Florência, filho de Guelph Cavalcante de' Cavalcanti, quem Dante condena a tormentos no sexto círculo d’O Inferno, onde os hereges eram punidos.

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